quarta-feira, 27 de abril de 2011

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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

PARTE III - DEPOIS DA NOITE QUENTE: DOR, DESCONTROLE E MEDO - (clique aqui e leia a partir da parte I)


“O uso de drogas levou-me a uma série de fracassos em todas as áreas de minha vida, o reviver contínuo destes fracassos me afundou em uma realidade de dor, descontrole e medo.”


Quando comecei a usar drogas, não imaginava que isto iria afetar todas as áreas de minha vida, sabia sim que as drogas eram danosas e que destruíam as pessoas, mas tinha uma convicção ignorante que iria controlar o uso e que ao menor sinal de descontrole, frearia o uso, pois julgava ter aquilo que não via nos nóias, a consciência.

Desta forma, posso dizer que meu início de drogadição, foi tranqüilo, sem maiores preocupações. Sem eu perceber, a vida começava a se desenrolar em função da droga.


PRIMEIRO FRACASSO: ESCOLA

Saia para ir à escola (com intenção mesmo de ir à escola), mas mudava meu destino quando via algum colega de vício, costuma dizer “hoje eu nem ia usar”, mas acabava usando.

Eu que nunca fui um aluno exemplar, começava a afundar meus estudos com o excesso de faltas, reprovei por vários anos seguidos, prejudicando não só minha vida estudantil, como o futuro profissional, cheguei a dizer para minha família que estava em uma série, quando na realidade estava em uma anterior, sou de uma família que valoriza a educação, por isso, não pude sustentar essa mentira por muito tempo. Não demorou e parei de estudar, sem completar se quer o ensino fundamental.


SEGUNDO FRACASSO: FAMÍLIA (o que mais dói)

A família se defende como pode, e uma defesa, é não enxergar o problema, soma-se a isso uma personalidade extremamente dissimuladora que se adquiri facilmente com o uso de drogas e o dependente consegue ficar alguns anos sem ser descoberto pelos familiares, o que só agrava o problema, já que a família é peça importante na recuperação, o que não significa que um dependente sem família está condenado a morte, pois um grupo ou mesmo uma comunidade/igreja pode assumir o papel da família na vida de um solitário. É bom lembrar que o responsável pela recuperação é o recuperando!

Com o fracasso na escola, o ambiente em casa começou a ficar insuportável, brigas passaram a ser constantes, comecei a chegar de madrugada e já não era apenas nos finais de semana, era quase todo dia, meus pais ficavam rodando pelo bairro a minha procura, mas eles nunca iam me encontrar, pois geralmente, estava dentro da favela, onde não imaginavam que seu filho poderia estar. No outro dia, seguiam eles ao trabalho sem terem dormido a noite anterior, uma situação triste, mas a esta altura, meus sentimentos já estavam cauterizados, eu não me importava, contanto que tivesse a droga, estava tudo bem!

Não dá para falar tudo a que submeti minha família, não tenho estômago, quase os destruí, hoje não carrego mais o sentimento de culpa já que tenho entendimento que se trata de uma doença, e não escolhi ter essa doença, é importante dizer que não sou responsável pela doença da dependência química, mas sou responsável pela recuperação, da mesma forma que uma pessoa não pode se culpar por ter diabetes, mas tem que ser responsável por tomar os remédios e evitar certos alimentos.


TERCEIRO FRACASSO: TRABALHO

Como minha dedicação primordial era a droga, não sobrava muito tempo para trabalhar, mas eu precisava, por dois motivos: amenizar minha situação em casa, e ter recursos (mesmo que insuficientes) para usar drogas. Arrumei um emprego perfeito, trabalhava quatro horas por dia, e tinha duas folgas na semana, logo tinha tempo para trabalhar, usar drogas e ainda descansava um pouco, minha internação foi bem nesta época.

Se por um lado não tinha qualificação para conseguir um emprego melhor, por outro, não tinha interesse em abrir mão da carga horária que favorecia meu estilo de vida. Meus empregos posteriores sempre tiveram essa característica: baixa carga horária - fiquei uns quatro anos em uma atividade onde trabalhava no máximo oito meses por ano.

Você deve estar se perguntado, se trabalhava pouco e ganhava na mesma proporção, como mantinha o vício? Além de destinar toda a renda de minhas atividades profissionais ao uso, eu roubava muito a minha família, muito mesmo, não posso quantificar, mas é mais que muito pai de família ganha no Brasil, além disso, em alguns momentos desenvolvi outras práticas que me davam algum recurso.


QUARTO FRACASSO: RELACIONAMENTO AMOROSO

Antes de começar a usar drogas, posso dizer que fui um adolescente que possuía certa facilidade em conquistar garotas, não era nada sério, até por que isso foi antes dos 15 anos, mas sempre ficava com garotas nesta época, eram apenas beijos, não havia envolvimento íntimo (graças a Deus, pois não é bom um adolescente ter esse tipo de envolvimento), depois do vício, passei a não me interessar mais pelas garotas, eu continuava gostando de garotas, continuava sendo atraído, mas não tinha tempo, dinheiro e nada mais que atraísse uma mulher, afinal, era só chutar um balde de lixo, que saia homens mais interessantes que eu na época das drogas.

Meu primeiro namoro sério, só aconteceu depois dos 20 anos quando estava em recuperação, porém depois de algumas recaídas, ela não agüentou e me largou, para falar a verdade, essa moça agüentou demais, submeti a muitas situações tristes e perigosas.

Usava-a para encobrir minha drogadição, muitas vezes usava drogas a noite toda e passava na casa dela pela manhã, pegava-a e levava para minha casa, assim todos pensavam que havia passado a noite com ela e não me drogando, deitávamos na cama e ficava lá, na nóia sem conseguir pregar o olho e ela alternando choro, orações e cochilos.

Muitas vezes levava-a a favela, a deixava em frente da favela enquanto eu descia as vielas atrás do traficante, a moça ficava largada a sorte em frente a uma favela em plena zona leste de São Paulo de madrugada.

Outras vezes, íamos ao motel, e em vez de fazer sexo, eu usava drogas, e drogado, não fazia nada além de ficar olhando por baixo da porta, ou com o ouvido na parede, imaginando a polícia chegando ou mesmo minha mãe indo para arrombar a porta do quarto e me pegar.

Sem contar que usei muita droga com o dinheiro dela, essa mulher me amou de verdade para agüentar essa situação tanto tempo, eu só amava a droga. Depois que fiquei limpo, procurei essa moça, todo feliz disse que estava limpo há mais de um ano e que havia me matriculado na faculdade e queria reparar todo mal. Ela me disse que estava feliz por mim e disse que já estava formada (é bem mais nova que eu) e já tinha um homem que estava reparando todo o mal que eu havia lhe causado. Não tem jeito, plantou, colheu!



segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

PARTE II - DEPOIS DA NOITE QUENTE (clique aqui para ler parte I)


Depois daquela noite quente de 1994, minha vida nunca mais foi a mesma...
Havia prometido a mim mesmo que experimentara a droga apenas para conhecer, e que jamais tornaria a usar aquela substancia, estava disposto a não usar drogas nunca mais, deixei isso bem claro ao W (rapaz que me iniciou no vício), ele concordou com um sorriso de canto de boca. E a vida seguiu como se nada tivesse acontecido!

Passados alguns dias, estava andando com o W, no mesmo local onde havia usado pela primeira vez, encontramos um rapaz, que não lembro nem nome, nem feição, este preparava droga para o uso, era amigo do W, parecia que gozavam de certa intimidade, W fez as cerimônias apresentando-me ao rapaz, que tranquilamente continuou com ritual do preparo da droga, batendo papo conosco despreocupado com o mundo ao seu redor, e com o fato de estar lidando com substância proibida em plena praça pública.

Eu estava observando o preparo da droga, e pouco dava atenção a conversa. Vi que ele preparou uma, duas, três porções iguais da droga, senti um gelo no corpo e as pernas bambearam, pensei: “Vão querer que eu use!”, “Mas não usarei, foi só uma vez para conhecer e nada mais”.

Quando as três porções ficaram prontas, a conversa cessou, o silêncio de alguns segundos, só foi quebrado pelo barulho baixinho da ingestão da droga.
O rapaz, dono da droga usou primeiro, depois foi o W, este, ao terminar, estendeu as duas mãos em minha direção, em uma das mãos estava um pequeno recipiente com a droga, na outra um objeto para ingestão da mesma.
Recusei de pronto, disse que não usava drogas, que só havia experimentado para conhecer, e que...

Meu discurso fora interrompido, e passei a ser constrangido a usar, diziam que não tinha nada a ver e que eu poderia usar sem medo, que todo mundo usava e que não fazia mal, era só eu saber a hora de parar...

Usei pela segunda vez... Nesta época, tinha 15 anos!

Jovem, inteligente, bem criado por uma família estruturada e maravilhosa, agora, fisgado pela droga!

quarta-feira, 16 de junho de 2010

É POSSÍVEL RECUPERAR-SE DO USO DE DROGAS SEM INTERNAÇÃO?

É comum ouvir entre as pessoas, que um dependente químico, para se recuperar do vício e levar uma vida normal, tem que ser afastado da sociedade e ser submetido a um tratamento com alguns meses de duração, em um lugar isolado e longe de qualquer possibilidade de uso de drogas. Algumas pessoas acreditam que com alguns meses sem uso de drogas, depois de o organismo desintoxicar, a pessoa conseguirá parar de usar drogas definitivamente e se voltar a usar drogas, é por falta de caráter, vontade ou algo do tipo.
Se a dependência química fosse uma doença física, este argumento poderia ser verdadeiro, porém, sabemos que a dependência química é uma doença espiritual, com graves conseqüências físicas é verdade, mas sua origem e desenvolvimento se dão na alma, nos sentimentos e no entendimento.

Quando fui internado pela primeira vez, após o terceiro mês de isolamento em uma fazenda para recuperação de dependentes químicos, tive a sensação de que nunca mais iria voltar a usar drogas. Desintoxicado, bem alimentado e praticando esportes, estava fisicamente recuperado.


Após 130 dias de internação, recebi alta, era jovem e meu maior desejo era voltar a estudar, trabalhar para construir um futuro digno. Porém depois de dois meses após a saída da internação, lá estava eu novamente no vício, com mais voracidade que antes e muito mais auto-destrutivo.
O que houve? Quando usei drogas pela primeira vez, não imaginava onde as drogas iriam me levar, não pensei que iria chegar ao fundo do poço, quase destruir minha vida e minha família, pensava que iria conseguir controlar, sem dúvida, na primeira vez me iludi, me auto- enganei, achando que não me viciaria. Achava que pararia de usar quando quisesse. Enganei-me!
Porém, quando recaí, após cinco meses internado e mais dois meses na rua, freqüentando um grupo de recuperação sem usar drogas, não havia desculpas, já sabia do poder destrutivo das drogas e que não podia controlar o uso uma vez que o iniciava, e alem do mais, meu organismo estava limpo e recuperado, eram sete meses sem uso de drogas. Para completar eu tinha sonhos, queria estudar, trabalhar, conhecer uma garota decente, casar, ter filhos e ainda, eu tinha todo apoio da minha família. E eu não era uma pessoa sem caráter, aliás, nunca fui!
Então, porque recaí?
A dependência química é uma doença comportamental, sendo assim, só é detida com a mudança do comportamento autodestrutivo, está mudança não é fácil de ser realizada, pois este comportamento é um traço marcante do indivíduo, que na maioria dos casos o acompanha há anos. No meu caso, os sentimentos de inferioridade, orgulho, baixa auto-estima e eterna insatisfação, ditavam meu comportamento.
Como mudar?
O primeiro passo para a mudança é a admissão que é necessário mudar! Admitir que algo está errado!
Se uma pessoa, não admite que tem um problema, ela nunca irá conseguir se libertar deste problema. Por isso, a recuperação não depende da igreja, da família, do pastor, da clínica de recuperação. A sua recuperação depende de você!
Uma vez admitido o problema (e isso já é um grande passo), o dependente químico está pronto para começar a se recuperar.
É importante lembrar que ninguém muda de um dia para o outro, porém o dependente químico não tem muito tempo, pois se o uso de drogas não for detido, o dependente poderá perder a vida a qualquer momento. Não é necessário lembrar que a conseqüência final do uso de drogas é a morte!
A princípio o recuperando deverá evitar lugares e pessoas que estão relacionadas ao seu uso de drogas.
Quem quer se recuperar não pode freqüentar bares, pontos de venda de drogas, baladas e similares. É importante saber, álcool é droga! Uma latinha de cerveja não mata ninguém, mas uma simples latinha de cerveja faz com que um dependente químico, acabe voltando ao uso de drogas!
Quem quer se recuperar, não pode andar com quem usa drogas, em hipótese alguma! Se você voltar a andar com usuários de drogas, você voltará ao uso!
Quem quer se recuperar tem que preencher seu tempo com atividades que o remeta à recuperação.
Nos primeiros meses, a obsessão (pensamento fixo no uso de drogas) e a compulsão (uso descontrolado de drogas) são o grande desafio do recuperando. Por isso é importante que o recuperando esteja todos os dias envolvido com a recuperação, em grupos de recuperação, igrejas etc.
É importante buscar amigos dentro de ambientes saudáveis, como por exemplo, nos citados no parágrafo anterior. No começo é difícil, pois o uso de drogas por um tempo prolongado nos torna diferente das outras pessoas, sentimos e reagimos diferente, mesmo sabendo que para Deus somos iguais. Esforce-se para fazer amigos que agregarão coisas boas a você, isso é fundamental para sua recuperação!
Os princípios contidos na bíblia são uma ferramenta poderosa, capaz de mudar o comportamento e o caráter do indivíduo. Se seguirmos este caminho seremos transformados e vivenciaremos o milagre, que é ficarmos uma hora sem usar drogas, esta hora se multiplicará e logo, será um dia, um mês, um ano, uma nova vida! Este é o milagre: Uma nova vida, sem drogas.
A internação ajuda, porém, nem todos tem acesso, além disso, o ambiente mais apropriado para a recuperação é o ambiente onde o recuperando vai ter que viver. Não adiante ficar meses internado, se adaptando a uma realidade que não é a sua, pois quando você voltar para sua realidade irá ter problemas e poderá voltar ao uso. Portando, pratique os princípios que foram apresentados neste texto, faça sua parte e viverá o milagre.

Funcionou para mim, funcionará para você!

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Parte I - Uma noite quente de 1994




Não lembro o mês, tão pouco o dia, mas sei que foi no ano de 1994, estava muito quente, isso eu lembro, era meu primeiro ano estudando no período noturno e naquele dia em vez de entrar para assistir aula, fui jogar futebol na quadra que fica na praça, ao lado da escola, na rua de cima da favela.
Era meu segundo ano naquela escola, Escola Municipal Henrique Mélega, na Vila Primavera zona leste de São Paulo. Conhecia um rapaz era alguns anos mais velho que eu, era um amigo, gostava de mim e eu dele, mesmo em se tratando de uma amizade recente.
Eu sabia que ele era envolvido com drogas e mesmo assim eu admirava-o muito, ele trabalhava, usava roupas legais, ficava com muitas garotas, tocava instrumentos musicais, jogava muito bem futebol e principalmente, era respeitado pelos demais garotos.
Comecei a andar com ele e fui aceito por ele, sempre estávamos juntos até que nesta noite ele me apresentou aquilo que seria a maior “paixão” da minha vida; a droga.
Era um saquinho azul que ele abriu e preparou em cima de uma ripa de caixa de feira, dessas que se coloca frutas, isso aconteceu exatamente no centro da quadra, ao ar livre estava razoavelmente vazio e as poucas pessoas que lá estavam não pareciam se importar com a cena, na realidade não fomos importunados por ninguém.
Esse rapaz estava acompanhado de outro e os dois preparavam a droga e riam muito, eu pensei que eles estavam de brincadeira, que aquilo não era droga, pensei que fosse uma espécie de pegadinha, mas eles insistiram dizendo que era droga e que era muito legal e que eu tinha que experimentar. Pedi que um deles usasse também, mas eles disseram que aquela era especial para mim.
Fui convencido, mas antes de ingerir a tal substancia deixei bem claro seria a primeira e ultima vez que faria uso daquilo. Eles concordaram que seria só para eu conhecer, assim fiz uso de droga pela primeira vez com muita tranqüilidade, pois tinha a certeza que seria apenas para conhecer e nunca mais voltaria a usá-la.
Parece que o mundo parou naquele momento, o gosto não era muito agradável, era forte, lembro ter dito “não estou sentindo nada”, mas estava, estava me sentindo bem, coração disparado, vontade de correr, mas não era medo, era energia, estava com tanta energia que tinha que extravasar. Joguei muito futebol aquela noite, suei muito também, fui para casa contando a um amigo o que havia acontecido e ele falará que tinha notado que estava diferente e realmente eu estava.
Cheguei em minha casa e entrei sorrateiramente já havia passado das 23hrs, tomei um banho, um copo de leite e deitei, ninguém em casa notou o que estava acontecendo, não consegui dormir aquela noite, mas estava me sentindo bem, não havia motivo para preocupação e em minha consciência eu repetia “nunca mais farei isto, foi só para experimentar!”.