quarta-feira, 16 de junho de 2010

É POSSÍVEL RECUPERAR-SE DO USO DE DROGAS SEM INTERNAÇÃO?

É comum ouvir entre as pessoas, que um dependente químico, para se recuperar do vício e levar uma vida normal, tem que ser afastado da sociedade e ser submetido a um tratamento com alguns meses de duração, em um lugar isolado e longe de qualquer possibilidade de uso de drogas. Algumas pessoas acreditam que com alguns meses sem uso de drogas, depois de o organismo desintoxicar, a pessoa conseguirá parar de usar drogas definitivamente e se voltar a usar drogas, é por falta de caráter, vontade ou algo do tipo.
Se a dependência química fosse uma doença física, este argumento poderia ser verdadeiro, porém, sabemos que a dependência química é uma doença espiritual, com graves conseqüências físicas é verdade, mas sua origem e desenvolvimento se dão na alma, nos sentimentos e no entendimento.

Quando fui internado pela primeira vez, após o terceiro mês de isolamento em uma fazenda para recuperação de dependentes químicos, tive a sensação de que nunca mais iria voltar a usar drogas. Desintoxicado, bem alimentado e praticando esportes, estava fisicamente recuperado.


Após 130 dias de internação, recebi alta, era jovem e meu maior desejo era voltar a estudar, trabalhar para construir um futuro digno. Porém depois de dois meses após a saída da internação, lá estava eu novamente no vício, com mais voracidade que antes e muito mais auto-destrutivo.
O que houve? Quando usei drogas pela primeira vez, não imaginava onde as drogas iriam me levar, não pensei que iria chegar ao fundo do poço, quase destruir minha vida e minha família, pensava que iria conseguir controlar, sem dúvida, na primeira vez me iludi, me auto- enganei, achando que não me viciaria. Achava que pararia de usar quando quisesse. Enganei-me!
Porém, quando recaí, após cinco meses internado e mais dois meses na rua, freqüentando um grupo de recuperação sem usar drogas, não havia desculpas, já sabia do poder destrutivo das drogas e que não podia controlar o uso uma vez que o iniciava, e alem do mais, meu organismo estava limpo e recuperado, eram sete meses sem uso de drogas. Para completar eu tinha sonhos, queria estudar, trabalhar, conhecer uma garota decente, casar, ter filhos e ainda, eu tinha todo apoio da minha família. E eu não era uma pessoa sem caráter, aliás, nunca fui!
Então, porque recaí?
A dependência química é uma doença comportamental, sendo assim, só é detida com a mudança do comportamento autodestrutivo, está mudança não é fácil de ser realizada, pois este comportamento é um traço marcante do indivíduo, que na maioria dos casos o acompanha há anos. No meu caso, os sentimentos de inferioridade, orgulho, baixa auto-estima e eterna insatisfação, ditavam meu comportamento.
Como mudar?
O primeiro passo para a mudança é a admissão que é necessário mudar! Admitir que algo está errado!
Se uma pessoa, não admite que tem um problema, ela nunca irá conseguir se libertar deste problema. Por isso, a recuperação não depende da igreja, da família, do pastor, da clínica de recuperação. A sua recuperação depende de você!
Uma vez admitido o problema (e isso já é um grande passo), o dependente químico está pronto para começar a se recuperar.
É importante lembrar que ninguém muda de um dia para o outro, porém o dependente químico não tem muito tempo, pois se o uso de drogas não for detido, o dependente poderá perder a vida a qualquer momento. Não é necessário lembrar que a conseqüência final do uso de drogas é a morte!
A princípio o recuperando deverá evitar lugares e pessoas que estão relacionadas ao seu uso de drogas.
Quem quer se recuperar não pode freqüentar bares, pontos de venda de drogas, baladas e similares. É importante saber, álcool é droga! Uma latinha de cerveja não mata ninguém, mas uma simples latinha de cerveja faz com que um dependente químico, acabe voltando ao uso de drogas!
Quem quer se recuperar, não pode andar com quem usa drogas, em hipótese alguma! Se você voltar a andar com usuários de drogas, você voltará ao uso!
Quem quer se recuperar tem que preencher seu tempo com atividades que o remeta à recuperação.
Nos primeiros meses, a obsessão (pensamento fixo no uso de drogas) e a compulsão (uso descontrolado de drogas) são o grande desafio do recuperando. Por isso é importante que o recuperando esteja todos os dias envolvido com a recuperação, em grupos de recuperação, igrejas etc.
É importante buscar amigos dentro de ambientes saudáveis, como por exemplo, nos citados no parágrafo anterior. No começo é difícil, pois o uso de drogas por um tempo prolongado nos torna diferente das outras pessoas, sentimos e reagimos diferente, mesmo sabendo que para Deus somos iguais. Esforce-se para fazer amigos que agregarão coisas boas a você, isso é fundamental para sua recuperação!
Os princípios contidos na bíblia são uma ferramenta poderosa, capaz de mudar o comportamento e o caráter do indivíduo. Se seguirmos este caminho seremos transformados e vivenciaremos o milagre, que é ficarmos uma hora sem usar drogas, esta hora se multiplicará e logo, será um dia, um mês, um ano, uma nova vida! Este é o milagre: Uma nova vida, sem drogas.
A internação ajuda, porém, nem todos tem acesso, além disso, o ambiente mais apropriado para a recuperação é o ambiente onde o recuperando vai ter que viver. Não adiante ficar meses internado, se adaptando a uma realidade que não é a sua, pois quando você voltar para sua realidade irá ter problemas e poderá voltar ao uso. Portando, pratique os princípios que foram apresentados neste texto, faça sua parte e viverá o milagre.

Funcionou para mim, funcionará para você!

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Parte I - Uma noite quente de 1994




Não lembro o mês, tão pouco o dia, mas sei que foi no ano de 1994, estava muito quente, isso eu lembro, era meu primeiro ano estudando no período noturno e naquele dia em vez de entrar para assistir aula, fui jogar futebol na quadra que fica na praça, ao lado da escola, na rua de cima da favela.
Era meu segundo ano naquela escola, Escola Municipal Henrique Mélega, na Vila Primavera zona leste de São Paulo. Conhecia um rapaz era alguns anos mais velho que eu, era um amigo, gostava de mim e eu dele, mesmo em se tratando de uma amizade recente.
Eu sabia que ele era envolvido com drogas e mesmo assim eu admirava-o muito, ele trabalhava, usava roupas legais, ficava com muitas garotas, tocava instrumentos musicais, jogava muito bem futebol e principalmente, era respeitado pelos demais garotos.
Comecei a andar com ele e fui aceito por ele, sempre estávamos juntos até que nesta noite ele me apresentou aquilo que seria a maior “paixão” da minha vida; a droga.
Era um saquinho azul que ele abriu e preparou em cima de uma ripa de caixa de feira, dessas que se coloca frutas, isso aconteceu exatamente no centro da quadra, ao ar livre estava razoavelmente vazio e as poucas pessoas que lá estavam não pareciam se importar com a cena, na realidade não fomos importunados por ninguém.
Esse rapaz estava acompanhado de outro e os dois preparavam a droga e riam muito, eu pensei que eles estavam de brincadeira, que aquilo não era droga, pensei que fosse uma espécie de pegadinha, mas eles insistiram dizendo que era droga e que era muito legal e que eu tinha que experimentar. Pedi que um deles usasse também, mas eles disseram que aquela era especial para mim.
Fui convencido, mas antes de ingerir a tal substancia deixei bem claro seria a primeira e ultima vez que faria uso daquilo. Eles concordaram que seria só para eu conhecer, assim fiz uso de droga pela primeira vez com muita tranqüilidade, pois tinha a certeza que seria apenas para conhecer e nunca mais voltaria a usá-la.
Parece que o mundo parou naquele momento, o gosto não era muito agradável, era forte, lembro ter dito “não estou sentindo nada”, mas estava, estava me sentindo bem, coração disparado, vontade de correr, mas não era medo, era energia, estava com tanta energia que tinha que extravasar. Joguei muito futebol aquela noite, suei muito também, fui para casa contando a um amigo o que havia acontecido e ele falará que tinha notado que estava diferente e realmente eu estava.
Cheguei em minha casa e entrei sorrateiramente já havia passado das 23hrs, tomei um banho, um copo de leite e deitei, ninguém em casa notou o que estava acontecendo, não consegui dormir aquela noite, mas estava me sentindo bem, não havia motivo para preocupação e em minha consciência eu repetia “nunca mais farei isto, foi só para experimentar!”.